29/04/10

em dracmas

Os yields das obrigações do governo grego a dois anos atingiram esta semana 32%. Ora, com valores desta grandeza, aquilo que os mercado estão a descontar já não é que a dívida do governo grego será reembolsada em euros. Aquilo que eles estão a descontar é que será reembolsada em dracmas - e dracmas fortemente desvalorizados.
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É possível prolongar a permanência da Grécia, bem como de Portugal e Espanha, no euro talvez um ano ou dois. Mas não é possível prolongar mais. A ajuda da UE/FMI à Grécia, se vier, vai prolongar a agonia, mas não resolve o problema. Um dos instrumentos-chave da receita do FMI, senão mesmo o principal, é a desvalorização da moeda. E dentro do euro a Grécia e Portugal não podem desvalorizar. Só podem fazê-lo fora dele.
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A saída do euro, e a desvalorização que se seguirá das moedas nacionais, vai levar as economias dos PIGS a fecharem-se por alguns anos. O custo de comprar produtos estrangeiros vai ficar muito elevado, e a procura passa a ser para produtos nacionais mais baratos, fazendo surgir novas empresas nacionais, ou fazendo expandir as existentes, que produzem para os mercados locais e nacional. Esta é uma característica da economia de tradição católica que tenho vindo a descrever, a prioridade que os produtores devem dar, primeiro ao mercado local, depois ao mercado nacional e só em último lugar ao mercado global. Tal significa que para os PIGS, pelo menos, a globalização está prestes a acabar.
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Num mercado local os produtores conhecem os consumidores e as suas necessidades, e podem orientar as suas produções para a satisfação dessas necessidades. Pelo contrário, o mercado global é uma abstracção, ninguém conhece ninguém, dificilmente as produções se podem ajustar às necessidades dos consumidores. Não surpreende que a experiência da globalização se tenha traduzido numa enorme crise que, na zona Euro, está a afectar os PIGS em primeiro lugar.
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E está a afectar os PIGS em primeiro lugar porque sendo países de tradição católica estão habituados a produzir para mercados locais, em primeiro lugar. A instituição económica por excelência destas economias é a pequena empresa - a empresa familiar. Estes países nunca tiveram muitas multinacionais, que são as empresas adequadas a produzir produtos estandardizados para mercados globais. Essa é uma característica das economias de tradição protestantes (EUA, RU, Alemanha, etc.).
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Para os PIGS a saída do euro representa voltarem a produzir de acordo com a sua tradição católica: pequenas empresas servindo em primeiro lugar mercados locais. Será assim também que em Portugal se vão revigorar as pequenas cidades do interior que a recente onda de globalização praticamente fez desaparecer do mapa económico do país.

27/04/10

Maria vai com as outras

A Grécia está à beira do colapso económico e político. Logo a seguir, na fila de espera, estão os países católicos, Portugal, Espanha, Irlanda e Itália.
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O que é que correu mal na questão do euro? O facto de os intelectuais de cultura católica não pensarem pela sua própria cabeça, não darem importância às ideias, não terem uma doutrina económica que seja conforme à sua cultura. Nunca a desenvolveram. Fora da Teologia, não há doutrina católica sobre economia, política, sociologia, direito, etc. Os intelectuais de cultura católica, incluindo os professores nas universidades, limitam-se a repetir doutrinas de origem protestante em todos estes domínios.
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Se existisse um pensamento económico católico, o que é que ele teria dito sobre a adesão ao euro, e com que argumentos? Teria rejeitado. O Euro é uma ideia tipicamente da tradição socialista (protestante) que acredita que as comunidades se constroem de cima para baixo. É o típico construtivismo social.
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O pensamento económico católico teria argumentado que as comunidades não se constroem de cima para baixo. Constroem-se de baixo para cima e o povo, nos diferentes países, nunca tinha reclamado a necessidade de uma moeda única. O personalismo católico que, a nível comunitário, se exprime no respeito pelas diferenças nacionais, teria a acrescentado que aquilo que é bom para um país não é necessariamente bom para os outros. As diferenças de produtividade, por exemplo entre a Alemanha e Portugal, não iriam desaparecer com o euro. Pelo contrário, iriam manter-se, e, a prazo, isso seria fatal para o euro. Os alemães, na sua tradição protestante, vivem para o trabalho e realizam a vida no trabalho. Os portugueses, na sua tradição católica, vivem para gozar a vida, trabalhando o mínimo que podem para esse efeito. Finalmente, o princípio da subsidiaridade. Se as pessoas, nos seus arranjos espontâneos, nunca tinham acabado com as moedas nacionais, porque razão vai o Estado fazê-lo coercivamente, quando ninguém o chamou para isso?
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Pronto, mas agora já é tarde. Agora, avizinha-se um cataclismo económico e político que acabará com o Euro para os países católicos e também com a classe política que ao longo dos últimos vinte anos não teve a inteligência para evitar meter-se nessa aventura. Faltando-lhes a capacidade e o engenho para pensarem pela sua própria cabeça, o que significa pensarem de acordo com a sua tradição cultural, os intelectuais de cultura católica são uma espécie de "Maria vai com as outras".

25/04/10

liberdade moderna

A concepção moderna de liberdade a que me refiro no meu post anterior também inclui isto, na realidade, como então argumentei, inclui o que se quiser (cf. tb. aqui).
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Eu gostaria ainda de me dirigir ao Rui a., que tem posto em causa a importância da minha hipótese de base acerca da cultura católica portuguesa, para lhe colocar duas questões:
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1) Imagina algums jornal português a conduzir uma campanha contra a visita do Papa semelhante àquela que tem sido conduzida pelo Times? Não imagina por certo. Porque o Papa estará em Portugal dentro de dias e nenhum a fez.
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2) Suponha que a notícia de hoje do Times era publicada num jornal português. Imagina uma caixa de comentários igual à do Times, com todo o tipo de ofensas ao Papa? Não é possível imaginar, significaria que Portugal estaria à beira de uma guerra civil.
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O Liberalismo que o Rui a. pretende defender está espelhado na caixa de comentários do Times. É um Liberalismo que se fosse implantado em Portugal conduziria à guerra civil (como conduziu depois da Revolução Liberal de 1820; como conduziu a uma revolução para se impôr na Inglaterra em 1688, onde o catolicismo foi derrotado e proibido por cerca de cem anos)

liberdade católica

O Rui a. afirma neste post que eu mudei muito nos últimos anos, ao ponto de desdizer praticamente tudo aquilo que havia dito no passado. Eu penso que mudei alguma coisa, mas não convém exagerar.
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Um ponto onde certamente mudei é na concepção de liberdade - mas não na ideia de liberdade em si - e é sobre este ponto que gostaria de elaborar, tanto mais que me parece que é este ponto que é decisivo para a avaliação que o Rui a. faz do meu percurso. Para tanto uma pequena digressão filosófica é necessária, porque é nesta digressão que está a chave da mudança.
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O tema central da Reforma Protestante foi a constestação da autoridade do Papa e é ainda esse ponto - aliás, o único - que ainda hoje une as diferentes denominações protestantes. O Papa é o representante de Deus, e portanto não seria nada surpreendente que mais cedo ou mais tarde a filosofia de inspiração protestante - que é a filosofia moderna - internalizasse esta ideia e contestasse a autoridade de Deus. Assim o fez.
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Foi Kant o filósofo que matou Deus. Se se disser que foi David Hume antes dele, eu não contestaria, porque não me parece ser um ponto decisivo. Hume é o filósofo do protestantismo anglo-saxónico e Kant o filósofo do protestantismo continental, que é essencialmente germânico. O protestantismo que se exprimiu na filosofia moderna a partir destes dois filósofos rejeitou uma ideia de liberdade - que eu chamarei aqui de liberdade natural - e substituiu-a por uma outra - a que chamarei liberdade moderna.
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A ideia de liberdade que prevalecia até à modernidade era, de facto, uma ideia de liberdade natural, aquela que emerge da família. E que liberdade é que um pai concede a um filho? A liberdade para fazer tudo aquilo que ele quiser desde que não seja mau para ele próprio ou para os outros. Quando o filho cresce, e se supõe que ele passa a saber aquilo que é mau para si próprio, a sua liberdade fica apenas limitada pela restricção de não fazer mal aos outros.
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O primeiro aspecto a salientar é o conteúdo concreto desta concepção de liberdade: "podes fazer isto, aquilo e aqueloutro, contanto que não faças mal aos outros". O segundo aspecto a salientar é que esta liberdade é limitada pela autoridade, inicialmente a autoridade do pai, depois as diversas autoridades que um homem encontra pelo caminho ao longo da sua vida, como a do professor, do patrão, etc., e, em última instância, quando não restar nenhuma autoridade humana acima dele, a sua liberdade é limitada pela autoridade de Deus. Esta é a concepção cristã (católica) de liberdade.
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Muito diferente é a liberdade moderna. Nós ainda hoje nos recordamos que no 25 de Abril que hoje se comemora toda a gente dava vivas à Liberdade, aliás a data é ainda hoje considerada o Dia da Liberdade. Trata-se, obviamente, de uma concepção abstracta de liberdade e, por isso, cada um dá-lhe o conteúdo que quer. Para uns, liberdade está na capacidade de votarem em eleições democráticas cada quatro anos, para outros em fazerem aborto a pedido, para outros ainda em depreciarem terceiros a seu bel-prazer; para outros ainda em terem um Estado mais pequeno; e para os homossexuais em poderem casar como fazem os heterossexuais. Já se vê que, nesta concepção abstracta, não há entendimento possível sobre o que seja a liberdade. Esta é uma concepção a-racional de liberdade, ao contrário da concepção católica.
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Em segundo lugar, depois de a filosofia moderna matar a autoridade de Deus, a liberdade moderna é limitada, não por uma autoridade pessoalizada e em última instância por Deus, como a liberdade católica, mas por uma outra abstracção - a lei. Em última instância a lei é que define o que é a liberdade. Ontem não havia liberdade para fazer um aborto, hoje já há. Hoje não há liberdade para dois homossexuais casarem, mas amanhã já pode haver. As dificuldades aumentam quando o sistema judicial não é eficaz, como acontece em Portugal, porque passa então a ser liberdade tudo aquilo que o sistema judicial não consegue penalizar. A concepção moderna é uma concepção arbitrária de liberdade. Dois homens perfeitamente racionais nunca chegarão a acordo sobre o que seja a liberdade.
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Era esta a concepção de liberdade que eu possuía no final dos anos 80 antes de saber no que ela dava. Hoje, perante os resultados que estão debaixo dos olhos, e fruto de uma mais profunda reflexão, não a perfilho. Perfilho a concepção de liberdade católica, que é uma liberdade concreta ("podes fazer isto, mas não aquilo") e uma liberdade que está sujeita a uma autoridade, em última instância a autoridade de Deus. Mas não me parece que, por esta diferença, eu seja hoje menos radical na defesa da liberdade do que era há vinte anos (como ainda hoje sou relembrado aqui).

24/04/10

The longest

The longest surviving institution in the World

É?

No seguimento do meu post anterior: as doutrinas saídas da reforma protestante, no domínio teológico, filosófico, político, etc., estão de tal maneira impregnadas de irracionalidade que tiveram de se inventar clichés para a ocultar. As pessoas repetem este clichés como se fossem verdades sem cuidarem de olhar para a realidade que os desmente conclusivamente.
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Um dos mais divulgados é o cliché de que a democracia é o único regime político que permite a substituição pacífica dos governantes.
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É? Foi assim que Hitler foi substituído no poder?

Kung


O Público divulga hoje uma carta aberta do teólogo suíço Hans Kung dirigida aos bispos católicos e publicada no New York Times. Kung foi colega do Papa na Universidade de Tubingen e mais tarde incompatibilizou-se com ele. A carta é uma crítica cerrada ao Papa. A principal reivindicação de Kung é antiga e é dessa que me ocuparei aqui - a substituição da autoridade suprema e absoluta do Papa na governação da Igreja Católica pelo poder colegial dos bispos.
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A questão é muito importante. Primeiro, porque tornaria a Igreja Católica semelhante às igrejas protestantes. Na realidade, a única coisa que une as igrejas protestantes é a sua contestação à autoridade suprema e absoluta do Papa. Segundo, porque se trata do confronto entre dois regimes de governação - o autoritário e o democrático -, que teria reflexos imediatos na sociedade. Esta é uma questão política da máxima importância.
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Eu fico sempre um pouco desconcertado como a Igreja Católica reage a estas críticas - ou permanece em silêncio, ou as reacções são conduzidas dentro de discussões teológicas mais ou menos complexas e de difícil compreensão para o público interessado, mesmo o inteligente. Se o Catolicismo é uma doutrina racional - e se a Igreja Católica é a guardiã da razão -, como eu julgo que é, não deverão existir impedimentos a confrontar os críticos com argumento racional fundado.
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A Igreja Católica propõe-se defender e promover a vida humana como valor supremo. A questão é então a de saber que regime de governação de uma comunidade humana (seja a Igreja, o país ou a família) é mais favorável à defesa e promoção da vida humana - o autoritário ou o democrático?
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Antes de responder, eu gostaria de invocar duas situações com o intuito de vivicar a questão. Primeira, os casos de pedofilia na Igreja levantaram uma onda justificada de indignação exigindo ao Papa responsabilidades e que ele tomasse medidas para corrigir a situação. Isso ele tem vindo a fazer. Porém, se a Igreja fosse governada por uma assembleia de bispos, a quem é que se iriam exigir responsabilidades?
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Segunda, se Portugal tivesse sido governado por Salazar nos últimos quinze anos, há muito que ele teria sido deposto. Tinham-se-lhe exigido responsabilidades pela estagnação económica, o desemprego crescente, o estado das contas públicas. Porém, como o país foi governado pela maioria, pedem-se responsabilidades a quem?
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Quando no topo da hierarquia da governação existe um homem com poder absoluto, e a governação corre mal, é possível falar racionalmente com ele, chamá-lo à razão, exigir reformas, de maneira que a governação seja reorientada para o bem comum e a promoção da vida humana. No caso de ele não aceitar os argumentos da razão, ou não ser capaz de os pôr em prática, então, ele vai ter de saír, a bem ou a mal. Mas se a governação é feita por uma maioria, ou pelos seus representantes, pede-se responsabilidades a quem, fala-se com quem, exigem-se reformas a quem?
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A ninguém. É impossível, uma maioria não é uma pessoa, é uma entidade impessoal, não é possível falar racionalmente com ela. A razão não pode prevalecer. Nada garante que o curso da governação seja corrigido e reorientado para o bem comum. Pode mesmo acabar num grande desastre, na realidade, os grandes desastres do século XX foram todos provocados por governos democráticos. Impedida a razão de prevalecer, prevalece a a-racionalidade das massas.
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A solução proposta por Kung retiraria à Igreja o instrumento principal que a tem mantido por milénios - a supremacia da razão, pessoalizada no Papa. Seguir a solução de Kung era desfazer a Igreja Católica em muitas igrejas independentes no espaço de poucos anos, à semelhança do que acontece com as igrejas protestantes, as quais já são 33 mil.